Tem um clichê carioca que diz que agosto é mês bom para não fazer nada importante. Decisão de negócio, término de relacionamento, cirurgia eletiva: espera passar agosto. Não sei se isso tem alguma base empírica, e suspeito que não. Mas como scriba de psicanálise, me interessa outra coisa: por que agosto tem essa fama? Por que o fim do inverno, a virada que ainda não chegou, produz essa sensação difusa de peso que muita gente traz para o consultório sem conseguir nomear direito?

A minha hipótese, que não é nova nem minha, é que o que aparece em agosto é o desamparo. Não o desamparo como tragédia, não como diagnóstico. O desamparo como condição.

A herança de Freud que raramente se discute em público

Freud usou a palavra alemã Hilflosigkeit para descrever algo que ele considerava fundante: o bebê humano nasce completamente dependente. Diferente de outros animais, a cria humana não consegue se virar. Precisa de alguém que interprete o choro, que ofereça o seio ou a mamadeira, que aqueça, que segure. Essa dependência radical não é só fisiológica; ela é a matriz de toda a vida psíquica posterior.

O que Freud propôs, e o que a escuta clínica ano após ano me faz reencontrar (não é prova de laboratório, é hipótese que a prática não desmente), é que esse estado original não se apaga com o crescimento. Ele fica como uma espécie de fundo de tela. Na maior parte do tempo, cobrimos esse fundo com rotina, com trabalho, com relações estáveis, com a ilusão razoável de controle sobre a própria vida. Funciona. Até parar de funcionar.

Agosto é um desses momentos em que o fundo de tela aparece. O inverno cansou, a primavera ainda não chegou, e o corpo sente a passagem do tempo de um jeito que a racionalidade não dá conta de explicar completamente.

O desamparo não é o mesmo que depressão

Aqui vale uma distinção que faço questão de marcar com os pacientes, porque a confusão entre os dois costuma fazer mal.

Reconhecer o desamparo não é adoecer. É, na verdade, o contrário de uma posição onipotente que exige que você esteja sempre bem, sempre produtivo, sempre capaz. O desamparo, no sentido freudiano, é estrutural. Ele diz respeito à condição humana, não ao seu déficit pessoal.

A depressão, quando está presente, tem outra textura: há perda de prazer, alteração de sono e apetite, pensamentos recorrentes de inutilidade ou culpa, um fechamento que vai além do peso sazonal. Isso pede avaliação clínica séria. Não estou dizendo que agosto seja inocente para quem já carrega uma vulnerabilidade depressiva.

O que estou dizendo é que sentir o desamparo, o fundo de tela que agosto expõe, não é automaticamente patologia. E tratar toda angústia existencial como sintoma a ser eliminado pode, paradoxalmente, aumentar o sofrimento. Porque aí você tem o desamparo mais a vergonha de sentir o desamparo.

O que a clínica faz com isso

Winnicott, por outro lado, falou muito sobre o ambiente que sustenta ou falha em sustentar. Para ele, o que o bebê precisa não é de perfeição, mas de uma presença suficientemente boa, capaz de tolerar a sua própria imperfeição. Isso tem uma leitura adulta, e eu a uso com frequência.

A questão que faço a muitos pacientes em agosto, às vezes de modo explícito, às vezes só para mim mesmo enquanto escuto: qual é o ambiente interno que você oferece ao seu próprio desamparo? Você consegue sustentar essa sensação por tempo suficiente para entender o que ela quer? Ou você imediatamente faz alguma coisa para se livrar dela, seja beber, trabalhar até não aguentar mais, brigar por um motivo que não tem nada a ver com o real motivo, ou fingir que está ótimo?

Lacan, com sua geometria característica, diria que o sujeito está sempre em falta, e que a tentativa de tamponar essa falta com objetos, com produção, com aprovação alheia, é o motor do desejo e também, quando repetida compulsivamente, a fonte de boa parte do sofrimento neurótico. Não vou expandir a teoria aqui, até porque o consultório não é seminário. Mas o ponto prático é o seguinte: o desamparo não é um problema a ser resolvido. É uma condição a ser reconhecida.

Por que isso importa agora, neste agosto

A virada de estação vai chegar. Setembro com suas flores que o carioca não vê muito, mas que estão por aí; as tardes que vão ficando mais longas. O peso de agosto vai arrefecer, como arrefece todo ano.

Mas antes que isso aconteça, há um convite que a psicanálise faz que eu acho genuinamente útil: sentar com o que você está sentindo agora, sem pressa de consertá-lo. Não como exercício de masoquismo. Como ato de reconhecimento.

O bebê que Freud descreveu não tinha escolha. Precisava de alguém de fora para sobreviver. O adulto, por mais que esse fundo de tela persista, tem algo que o bebê não tinha: a possibilidade de nomear o que sente. De dizer: estou em desamparo agora. Isso não me mata. Não precisa me paralisar. Mas também não precisa ser escondido atrás de uma performance de quem tem tudo sob controle.

Reconhecer o desamparo, na minha observação clínica, costuma liberar a energia que estava sendo gasta na manutenção da fachada. Mas não vou vender isso como catarse indolor. Reconhecer o que dói é mais desconfortável, no primeiro momento, do que continuar fingindo. O ganho vem depois, e vem para quem aguenta ficar na sensação sem correr para tamponá-la. Não é um passe de mágica. É trabalho.

Então, se agosto está pesado para você, não é necessariamente sinal de que algo está errado com você. Pode ser sinal de que você está, pela primeira vez em muito tempo, prestando atenção. O que você faz com essa atenção, aí sim, é decisão sua, e vale checar: dá para sustentar sozinho, ou é hora de dividir isso com alguém que escute? Se o peso não cede, se vira aquele fechamento de que falei lá em cima, procurar avaliação não é fraqueza. É a mesma coragem, só que continuada.

Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.