Tem uma senhora no interior de Pernambuco que recebe gente às terças. Ela não tem consultório, não tem CNPJ, não tem formação reconhecida pelo CFP. O que ela tem é um conjunto de rezas, ervas e gestos que atravessou pelo menos três gerações da família dela. As pessoas chegam com mau-olhado, susto, quebranto, vento caído. Saem, muitas vezes, mais leves. Isso é folclore? É saúde? As duas coisas ao mesmo tempo? A psicologia hegemônica, durante muito tempo, preferiu não responder.
O que descartamos quando chamamos de superstição
O 22 de agosto, Dia do Folclore no Brasil, costuma ser preenchido com festa junina fora de época e repente no palco de prefeitura. Raramente alguém para para perguntar o que os saberes populares têm a dizer sobre saúde mental, sobre o sofrimento que não tem nome nos manuais, sobre as formas de acolhimento que as comunidades desenvolveram muito antes de a psicologia existir como campo formal.
Benzedeiras, rezadeiras, curandeiros, pais e mães de santo, parteiras: são figuras que operam no que poderíamos chamar de saúde comunitária difusa. Não é que eles diagnostiquem transtornos. É que eles reconhecem o sofrimento, nomeiam de um jeito que faz sentido para quem sofre, e oferecem um ritual de passagem, de contenção, de pertencimento. Isso não é pouca coisa.
A literatura em saúde coletiva e em psicologia social tende a apontar que o ato de nomear o sofrimento já tem efeito terapêutico. Ter um nome para o que se sente, ser reconhecido por uma comunidade como alguém que está passando por algo real, receber atenção e cuidado, estar dentro de um ritual que organiza o caos interno: há indícios de que esses elementos produzem alívio. A benzedeira não precisa do DSM-5 para isso. Ela tem um vocabulário próprio, e esse vocabulário se encaixa na cosmologia de quem a procura.
O que a psicologia demorou para aprender
Durante décadas, a psicologia importou modelos do Norte global e os aplicou sobre populações que tinham outra relação com o sofrimento, com o corpo, com o sagrado. A medicalização do cuidado, a patologização da espiritualidade, a desqualificação dos saberes tradicionais como "pré-científicos": tudo isso tem nome na teoria, e o nome é colonialidade do saber. Conceito cunhado por pensadores latino-americanos, especialmente das ciências sociais, que descreve como o conhecimento produzido em centros de poder se impõe como universal, apagando epistemologias locais.
No campo da saúde mental, isso teve consequências concretas. Práticas de cuidado que vinham dos terreiros, das comunidades quilombolas, dos povos indígenas, das periferias das cidades grandes foram tratadas como obstáculo ao tratamento, não como aliadas possíveis. O paciente que continuava indo à benzedeira depois da sessão escondia isso do terapeuta, como quem esconde um hábito vergonhoso.
A Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no SUS e outros movimentos dentro da saúde coletiva brasileira começaram, aos poucos, a abrir espaço para outra conversa. Não sem resistência, não sem debate técnico legítimo sobre eficácia, sobre limites, sobre os casos em que o saber popular pode atrasar um diagnóstico necessário. Essa tensão existe e precisa ser dita.
Sem romantismo, sem descarte
Aqui mora o ponto mais difícil, e onde muita gente escorrega nos dois lados.
Romantizar os saberes populares é um erro tão sério quanto descartá-los. Não existe comunidade tradicional monolítica, não existe saber popular isento de hierarquia de poder, de relações de gênero problemáticas, de situações em que o atraso no cuidado formal causou dano real. Quem cresceu numa comunidade sabe que o terreiro pode ser lugar de acolhimento e de controle ao mesmo tempo. Que a benzedeira pode ser a única rede de suporte de uma mulher em situação de violência, e também pode, em alguns casos, reforçar a resignação.
A questão não é escolher entre o saber popular e a psicologia clínica. A questão é parar de tratar essa como uma escolha binária.
Quando uma pessoa chega ao CAPS depois de ter passado na benzedeira, ela não chegou "atrasada". Ela percorreu um caminho de cuidado que fazia sentido no contexto dela, e agora está num outro nível de suporte. O clínico que consegue integrar essa trajetória, em vez de descreditá-la, tem mais chance de construir vínculo terapêutico. É razoável supor que o abandono de tratamento em populações periféricas tem relação, entre outras coisas, com essa falta de reconhecimento.
E integrar não é fantasiar de benzedeira. Respeitar o saber da senhora de terça não autoriza psicólogo nenhum a rezar quebranto no consultório nem a vestir a tradição dela como técnica própria. Isso não é integração, é apropriação, e apropriação é uma forma fina de desrespeito. O lugar de quem reza é dela. O lugar do clínico é não jogar fora o que a reza já segurou.
O que as comunidades sempre souberam
Há algo que os saberes populares de cuidado conhecem de modo intuitivo e que a psicologia sistematizou depois: o sofrimento não existe no vácuo. Ele existe num corpo, numa família, numa vizinhança, num território, numa história. A benzedeira atende a pessoa inteira, dentro do contexto inteiro. O ritual da reza não é só a reza: é o tempo que alguém dedicou, a escuta, o reconhecimento de que aquele sofrimento é real e merece atenção, o pertencimento a uma tradição que diz que você não está sozinho nisso.
A psicologia comunitária, a saúde mental coletiva, a clínica ampliada: todos esses campos foram construídos, em parte, aprendendo com o que as comunidades já faziam antes de qualquer formalização. Seria honesto reconhecer isso em vez de fingir que o conhecimento foi sempre de cima para baixo.
No Dia do Folclore, a pergunta incômoda não é se a benzedeira cura ou não. A pergunta é: por que, em pleno 2026, com todo o aparato de saúde mental que o Brasil construiu e destruiu e tentou reconstruir, ainda sobra tanta gente cujo único cuidado disponível é ela?
Talvez o folclore não seja o problema. Talvez seja o espelho.
Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.