Em 11 de agosto de 1827, um decreto imperial criou os primeiros cursos jurídicos do Brasil, um em São Paulo e outro em Olinda. A data tornou-se, com o tempo, símbolo dos estudantes brasileiros, primeiro celebrada nos pátios das faculdades de direito e, décadas depois, incorporada ao calendário nacional como Dia do Estudante. Havia ali uma ideia de que o acesso ao conhecimento formal era, em si, uma conquista coletiva. Uma afirmação de que estudar importa. O que o decreto de 1827 não podia antecipar é que um século e meio depois o Brasil formaria dezenas de milhares de psicólogos por ano, e que boa parte desses estudantes chegaria ao último semestre do curso esgotada, em dúvida sobre si mesma, às vezes em sofrimento silencioso, exatamente porque aprendeu cedo demais que não é permitido estar mal.

O paradoxo do cuidador em formação

Existe uma tensão particular em estudar psicologia. Diferente de outros cursos de saúde, onde o estudante frequentemente se posiciona como técnico diante de um problema a resolver, a formação em psicologia exige presença subjetiva. Você é, de algum modo, o instrumento. A relação terapêutica depende de quem você é, de como você escuta, de quanto você consegue tolerar o que o outro traz sem recuar. Isso é belo, mas também é pesado.

A literatura da área há muito discute o conceito do "curador ferido", originalmente atribuído à psicologia junguiana a partir de uma figura da mitologia grega: Quíron, o centauro que ensinou outros a curar mas não conseguiu se curar da própria ferida. A imagem não é uma metáfora de fracasso, é uma metáfora de condição. Há indícios consistentes, embora ainda fragmentados na pesquisa brasileira, de que estudantes de psicologia apresentam taxas elevadas de sofrimento psíquico ao longo da graduação, especialmente nos estágios clínicos. O contato com o sofrimento do outro sem supervisão suficiente, sem espaço pessoal de elaboração, e dentro de uma cultura formativa que historicamente valorizou a neutralidade quase como ausência de afeto, pode produzir um acúmulo silencioso.

A síndrome do impostor dentro da clínica-escola

Há um fenômeno que boa parte dos estudantes de psicologia reconhece quando nomeado, ainda que raramente o nomeie em sala de aula: a sensação persistente de não saber o suficiente para sentar do outro lado da mesa. A síndrome do impostor, descrita na literatura como um padrão de pensamento em que a pessoa atribui suas conquistas a sorte ou engano alheio e antecipa ser "descoberta" como incompetente, tem terreno fértil na formação em saúde mental. Isso porque a competência em psicologia é, em muitos aspectos, difícil de objetivar. Não há exame de imagem que comprove que você está escutando bem.

O estudante que atende pela primeira vez em clínica-escola carrega uma mochila invisível. Há o peso do que aprendeu: teorias, técnicas, contraindicações, leituras. Há o medo do que não aprendeu ainda. E há, em geral, pouco espaço institucional para dizer "estou com medo" sem que isso pareça incompetência. A supervisão existe, e quando bem conduzida é um dos recursos mais protetores da formação. Mas há uma lacuna entre o que acontece no atendimento e o que entra na supervisão, preenchida muitas vezes por ruminação solitária.

É razoável supor que essa lacuna cobre, frequentemente, os afetos que o estudante mais precisaria elaborar: a identificação com o paciente, a sensação de impotência diante de um quadro grave, o medo de fazer mal.

A pressão de estar bem para poder atender

Existe uma expectativa, nem sempre dita em voz alta, de que o estudante de psicologia deveria ser, por formação, emocionalmente mais estável que a média. Como se o estudo do sofrimento conferisse imunidade a ele. Essa expectativa pode vir dos familiares ("você que entende dessas coisas"), dos colegas, e às vezes dos próprios professores, quando o ambiente de sala não acolhe a vulnerabilidade discente.

O resultado é uma forma sutil de silenciamento. O estudante que está passando por ansiedade intensa, por uma crise de sentido, por luto ou por esgotamento aprende a não dizer. Não porque não haja palavras: ele tem mais palavras do que ninguém para nomear o que sente. Mas porque nomear parece contraditório com o papel que está aprendendo a ocupar.

Isso não é exclusividade brasileira, mas tem cores locais. Cursos de psicologia no Brasil, em sua maioria, ainda carecem de estrutura institucional sistemática de apoio ao estudante em sofrimento. A análise pessoal, recomendada por correntes de formação mais tradicionais, é cara e inacessível para boa parte dos estudantes de instituições públicas e privadas de menor renda. E o estigma de "psicólogo que precisa de psicólogo" ainda circula, embora de forma mais velada do que circulava há vinte anos.

O que o Dia do Estudante poderia perguntar

Agosto, com sua friagem no Sul e seu início de segundo semestre em boa parte do país, é o mês em que os estágios clínicos entram no ritmo mais pesado. Os casos se acumulam, as supervisões ficam mais densas, as monografias começam a cobrar prazo. É também, frequentemente, o mês em que o cansaço se instala de forma mais visível.

O Dia do Estudante, como data, não serve para fazer festa. Serve, talvez, para uma pergunta que as instituições ainda fazem pouco: como estão os estudantes de psicologia? Não os que atenderão pacientes daqui a dois anos. Os que já estão atendendo agora, sentados do outro lado da mesa, com o coração acelerado, tentando integrar teoria e presença numa mesma hora semanal.

Reconhecer que o estudante de psicologia sofre não é enfraquecer a profissão. É, ao contrário, o gesto mais coerente com aquilo que a própria psicologia ensina: que nomear o sofrimento é o primeiro passo para não ser engolido por ele. Quíron não era menos hábil por carregar sua ferida. Era mais honesto.

Mas há uma diferença entre reconhecer e prover, e é nela que quero deixar a incômoda. Reconhecer o sofrimento discente sem oferecer supervisão adequada, espaço de elaboração e acesso a cuidado é ficar na metade do caminho, e a metade do caminho, aqui, tem custo. A honestidade que a clínica pede começa em quem forma: nas coordenações que precisam decidir se apoio ao estudante é linha de orçamento ou discurso de abertura de semestre. Quíron ensinou muita gente a curar. Ninguém, na história, se preocupou em curar Quíron. Convém que a formação não repita a fábula.

Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.